Expectativas e decepções. O que aprendemos com as despedidas?
Por Ricardo Garcia
"São nas horas difíceis que descobrimos com quem podemos contar". "É na hora do aperto que sabemos quem são nossos amigos de verdade". Essas e outras frases de tão repetidas se tornaram clichês para retratar como nos sentimos naqueles períodos em que precisamos lidar com o mundo desabando nas nossas costas e lamentamos a falta de apoio e de amparo daqueles que achávamos que estavam do nosso lado.
A morte de um ente querido nosso acaba sendo um dos momentos mais ilustrativos desse fenômeno.
O momento da partida de uma pessoa costuma ser cercado de simbolismos e rituais de despedida, representados por homenagens póstumas e lembranças. Dentre essas expressões simbólicas, o velório e o enterro, com as particularidades de cada cultura, são consideradas as mais representativas no que diz respeito à marcação da passagem entre a vida e a morte.
Em razão dessa representatividade, estar presente em momentos assim é uma forma de prestar respeito e consideração por quem está partindo, assim como amparar e demonstrar solidariedade e afeto aos parentes enlutados. Não há postagem em rede social ou mensagem emotiva que substitua o contato físico com os familiares de alguém que você nutria apreço e que está deixando esse mundo.
Desse modo, a presença física em rituais fúnebres funciona como um gesto empático, de compartilhamento da dor com outras pessoas que também estão sofrendo com a partida de alguém querido.
Há casos, porém, em que por mais que não haja uma proximidade tão grande com o falecido ou que sequer tenha havido algum encontro com a pessoa que está partindo, uma espécie de elo de união pode ser encontrado, fazendo com que, de alguma forma, aquela pessoa represente sim algo significativo para você. Nesses casos, comparecer a uma solenidade de despedida é uma maneira de expressar a gratidão que você sente por aquele ser ter lhe inspirado de algum modo.
Digo tudo isso após acompanhar a repercussão sobre o velório do ex-jogador de futebol Pelé. Celebrado e reverenciado no mundo todo ao longo de sua vitoriosa carreira esportiva e mesmo depois de ter parado de jogar profissionalmente, Pelé foi uma das personalidades mais famosas e cultuadas da história. Na perspectiva nacional, ele é o rosto brasileiro mais conhecido de todos os tempos.
Apesar de todos esses predicados, de todas as homenagens e de todas as palavras de apreço dedicadas a ele após o anúncio da sua morte, o velório de Pelé foi marcado pelo vazio. Obviamente, os seus familiares próximos estavam presentes. Assim como estavam presentes fãs anônimos, admiradores do seu talento e da sua trajetória.
A sua "classe" futebolística e esportiva, porém, não se fez presente, com raríssimas exceções. Foram notórias e repercutidas as ausências de companheiros, adversários, contemporâneos, além de nomes de gerações que o sucederam. Que se inspiraram nele. Que viraram o que viraram por conta dele.
A reflexão precisa ser ampliada, porque o que aconteceu não é raro e está longe de ser inédito, embora tenha chamado a atenção o fato de ter acontecido com alguém da dimensão da figura de Pelé.
É comum em muitos processos de enlutamento observar a mágoa ou a decepção nutrida por um familiar em relação a alguém que se considerava ou era considerado próximo da família, mas que em determinados momentos simplesmente se afasta.
Geralmente, o afastamento se dá nos momentos mais críticos, sensíveis e dolorosos. A morte acaba sendo o ápice desse processo. Dessa forma, o não comparecimento a rituais de despedida, como o velório e o enterro, acaba sendo o reflexo do que é enxergado como falta de sensibilidade e de consideração.
Casos como o do ilustre Pelé apenas reforçam que situações assim são mais comuns do que pensamos.
Se isso aconteceu com uma das personalidades mais famosas e cultuadas da história, você imagina com meros anônimos como nós?
A lição que se pode tirar de tudo isso é que o reconhecimento, os elogios, as palmas que recebemos ao longo de nossas vidas não significam muita coisa. Na verdade, não significam quase nada.
Viver a vida em busca do aplauso alheio é inútil e improdutivo. Cobrar dos outros o aplauso, as lágrimas, a consideração por nós e por quem amamos é igualmente inútil, além de desgastante e fonte de decepção.
No final dos nossos dias e na hora da nossa despedida, é o que fizemos por nós mesmos e por quem está ao nosso lado que conta. Se poucos ou muitos irão valorizar os nossos feitos, é algo que está fora do nosso controle. De onde estiver, Pelé saberá quem esteve com ele.



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