Se perdoar é humano, não perdoar também é

Por Ricardo Garcia

Perdoar é uma atitude nobre, cristã, um sinal de evolução espiritual e de compadecimento com o próximo.

Mesmo assim, não são muitos os que têm essa capacidade apurada, esse dom de perdoar. E isso acontece porque perdoar não é tão fácil quanto pode parecer. Exige desprendimento, senso de piedade, além de um espírito pacificador e conciliador.

Embora seja admirável olharmos para figuras como Nelson Mandela, que após passar o que passou, teve a grandeza de procurar a reconciliação com os seus opressores, dentre outros seres evoluídos que exercitaram (ou exercitam) o perdão no dia a dia depois de enfrentarem terríveis agruras, nós sabemos que reproduzir essas atitudes e aplicar o perdão nas nossas vidas é um extremo desafio.

Afinal, será que todos nós somos capazes de perdoar? Será que todos nós somos dotados dessa compaixão desmedida, que relativa o que fizeram contra nós? Será que existe uma escala do que estamos dispostos a perdoar?

A verdade é que, a depender das nossas personalidades, das nossas vivências de mundo e das nossas convicções, há casos em que é muito difícil simplesmente perdoar e não nutrir sentimentos negativos contra pessoas que nos fizeram extremamente mal.

Essa reflexão me veio a tona ao ler declaração do ator Raul Gazolla, que relembrou a morte de sua ex-mulher, a atriz Daniela Perez, assassinada em 1992. Em entrevista recente, o ator disse não ter superado até hoje a perda da mulher, afirmando que não se sente "espiritualmente evoluído a ponto de perdoar" os assassinos da sua esposa. 

Muita gente se colocaria na mesma situação de Gazolla. Pode ser fácil falar de perdão da boca pra fora ou em episódios menos traumáticos. Mas quando se trata de lidar com um crime brutal, como foi esse, que tirou uma pessoa amada da sua vida, você seria capaz de perdoar o responsável por tremenda dor?

O mesmo questionamento pode ser levantado para casos de traição ou para uma prisão injusta, por exemplo, quando somos terrivelmente prejudicados e sofremos em razão de uma atitude má intencionada do outro. Será que em situações assim não seria absolutamente aceitável e justificável compreender sentimentos de vingança e de amargura por parte da vítima?

Na realidade, acredito que para todos existe uma espécie de régua moral, que mede o que consideramos tolerável ou não nas relações sociais e que varia de pessoa para pessoa.

Posso até duvidar se o mais tolerante dos cristãos não avalia certas condutas como imperdoáveis, nem que esse sentimento seja nutrido lá no seu interior, sem externá-lo. Pois, se perdoar é humano, entendo que não perdoar também é.



Comentários

Mensagens populares