O corajoso ato de desacelerar

Por Ricardo Garcia

"A vida necessita de pausas." (Carlos Drummond de Andrade)

Como sabiamente nos alerta o ilustre escritor Carlos Drummond de Andrade, para viver bem precisamos nos permitir a momentos de pausas. Quando não for possível parar de uma vez, devemos, pelo menos, diminuir o ritmo.       

A vida, muitas vezes, nos cobra pressa, nos induz e nos condiciona a correr atrás. Estamos sempre correndo atrás de algo. Sonhos, projetos, planos, realizações pessoais e profissionais. Estabelecemos tantos prazos para as nossas vidas que se não corrermos desesperadamente atrás de cumpri-los no tempo que planejamos, sentimos que fracassamos

São tantos os objetivos que temos a cumprir ao longo das nossas caminhadas que não admitimos parar, respirar, recalcular rotas. Vamos seguindo o fluxo da vida.

Só que em algum momento vai ser necessário parar. Se não for o nosso corpo, vai ser a nossa mente que vai pedir descanso alguma hora.

A questão é que podemos nos antecipar a isso, evitando que a pausa seja forçada, provocada pelo nosso colapso físico ou mental. Para que essa pauta aconteça de maneira natural, precisamos adotar uma postura mais altiva diante da vida. 

Ao invés de sermos atropelados pela rotina, tentando sempre acelerar o nosso passo para acompanhar o ritmo frenético do dia a dia, porque não se conceder pequenos (ou grandes, se houver disponibilidade) períodos de pausa, de desaceleração?

Muitos podem pensar (erroneamente) que parar, desacelerar, curtir um momento ocioso (ou menos exigente) na vida é sinal de rendição, de comodismo. 

Na realidade, existe um estigma muito grande acerca do termo "zona de conforto", encarado pelo senso comum como algo negativo, como sinônimo de estagnação, de acomodação. A realidade é que se algo é ou está confortável para você, isso não pode ser ruim.

Se algo nos dá conforto, é óbvio que vamos querer ficar nessa situação, porque nos sentimos protegidos, seguros e respaldados. O que não podemos deixar acontecer é que a zona de conforto nos paralise, nos bloqueie e nos impeça de realizar coisas novas. Acredito, portanto, que há uma falha de interpretação quanto ao significado da expressão, o que a deixa propensa a distorções.

De qualquer forma, em um mundo que demanda cada vez mais o nosso esforço, seja ele emocional, psicológico ou físico, nos cobrando e nos exigindo níveis de concentração e de entrega que muitas vezes não estamos dispostos ou aptos a retribuir, se permitir a desacelerar é um ato de sabedoria. Diria até que é um ato de sobrevivência.

Claro que nem todos podem se dar ao luxo de escolher quando esse momento vai acontecer. O mais importante é saber que ele PRECISA acontecer. Afinal, o freio foi criado por algum motivo.  

   

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