Quem fala pouco pode ter muito a dizer...

Por Ricardo Garcia

Ele é gente boa, MAS é tão calado. A gente mal escuta a voz dele, MAS sempre que ele fala diz algo muito inteligente. O seu filho (a) é tão quietinho (a) né?

Quem é mais introvertido, calmo ou quieto já deve ter perdido as contas de quantas vezes escutou esse tipo de comentário (e ficou calado pra não responder com grosseria rs rs). Eles parecem tão inofensivos, elogiosos e até meigos, mas na verdade refletem o sentimento de uma sociedade que não admite a introspecção.

É como se, ao destacar as qualidades de uma pessoa, você sempre estivesse relativizando o que alguém tem de bom a partir do quão extrovertida ela é. O pior de tudo: é não reconhecer a introspecção, a introversão ou algo similar como qualidades! Porque sim, basta se aprofundar um pouco mais sobre o estudo do comportamento humano para saber que muito do progresso e do desenvolvimento da nossa sociedade se deve ao esforço de mentes calmas.

Se você estiver disposto a entender esse universo e começar a desconstruir pensamentos e julgamentos reproduzidos de geração em geração a respeito das pessoas mais contidas, uma indicação essencial é a leitura do livro "O poder dos quietos - Como os tímidos e introvertidos podem mudar um mundo que não para de falar", de autoria de Susan Cain.

Você sabia, por exemplo, que timidez e introversão são conceitos diferentes? Pois é, o desconhecimento e a pressa em fazer julgamentos sobre os outros levam muita gente a encaixotar tudo num pacote só. "O fulano mal fala, é antissocial, quieto, antipático. Ele é muito tímido." Perceba que somente em um julgamento (extremamente recorrente), são misturados elementos aparentemente similares entre si, mas bem distintos se analisados caso a caso. Tudo isso ocorre porque existe um espectro social capaz de nos enquadrar.

Uma reflexão que surge já na apresentação de "O poder dos quietos" ilustra bem os dilemas dessa confusão. O pensamento é do escritor Max Gehringer, que destaca: "Crianças caladas, que preferem ficar em seu canto, mesmo que pareçam satisfeitas, são quase sempre incentivadas a se soltar mais, a procurar amigos, a sair da toca. Tanto em casa como na escola, elas são classificadas como envergonhadas, retraídas, sem iniciativa, e comparadas negativamente com colegas que parecem já ter nascido para brilhar sob as luzes dos refletores."  

A questão central da percepção que se tem sobre pessoas mais retraídas é justamente essa: a projeção social desfrutada e reconhecida por quem tem a personalidade completamente oposta a delas. É como se o padrão proativo e sociável fosse o ideal a ser seguido, fazendo com que se tentasse moldar todos a esse ideal social.

Nesse sentido, Max Gehringer também ressalta que a leitura da obra é reconfortante para quem sempre se sentiu inferiorizado por conta da sua personalidade mais retraída. "O propósito deste livro é mostrar aos introvertidos e aos calados que eles estão em ótima companhia. Os que sofreram até agora com as críticas à sua atitude, ou falta dela, se sentirão reconfortados ao descobrir que sempre estiveram certos."

Na realidade, sejamos bem sinceros: nem sempre quem fala demais tem algo relevante a dizer (na verdade quase nunca tem). Por outro lado, quem fala pouco, geralmente, tem tanto conteúdo a compartilhar que se sente inibido de dar vasão a ele, preferindo se resguardar.

No final das contas, a introversão e a extroversão são valores completamente irrelevantes e indiferentes na construção social. Eles não são indicadores de caráter. Eles não são atestados de qualidade de uma pessoa. Eles não são sequer sinais de inteligência. São apenas estágios de personalidade, com características e manifestações próprias, que variam também de indivíduo para indivíduo. Nem todo tímido é igual. Nem todo extrovertido é igual.

O segredo da vida é se permitir conhecer a complexidade humana, com as suas nuances e belezas, sem estigmatizar ninguém por ser quieto demais ou pela quantidade de vezes que abre a boca, seja para sorrir ou para falar.    

     


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