Por que julgamos nossos pais?
Esse trecho da música Pais e filhos de Renato Russo nos mostra
como julgamos nossos pais, buscando perfeição neles e os enxergando como seres
humanos proibidos de cometer deslizes na criação dos filhos.
Quando julgamos nossos progenitores, apontando suas falhas, cobrando perfeição e questionando que eles deveriam ter sido impecáveis na nossa criação, estamos, de alguma forma, agindo contra nós mesmos. Ao fazermos isso, acabamos por, inconscientemente (ou conscientemente), começar em algum momento repetir as suas atitudes, e é por causa desse julgamento que fazemos, que um padrão familiar vai se formando ali e se enraíza nesse laço. Cobrar dos outros, e especialmente dos nossos pais, a completa retidão moral e comportamental, além de estarmos sendo injustos, estamos sendo imaturos, porque a vida não é linear, estável, sem desvios.
Agindo dessa maneira, ignorando as complexidades humanas e geracionais, estamos prejudicando, em alguma medida, a nossa própria capacidade de viver e de manter relações saudáveis, a curto e a longo prazo. Nos tornamos intolerantes e insensatos em relação a dor do outro.
O ser humano, enquanto adulto amadurecido emocionalmente, precisa ser capaz de se colocar no lugar daqueles que assumiram um cargo de alta responsabilidade sem um manual de instruções de como agir em cada momento.
Quando crescemos e atingimos uma mente madura, entramos em contato com nossos
próprios questionamentos, descobrimos o quanto equivocado é colocar
os pais em uma roupagem de super herói, sem considerar sua humanidade,
esquecendo que eles são nada mais do que figuras que ganharam um título de cuidador,
educador, provedor de um outro ser, mas que isso não tira suas dores, traumas e
conflitos pessoais também. É uma carga emocional muita pesada para os pais carregarem.
Quando digo que meus pais não me entendem, me coloco acima
deles. Coloco minha dor, meus conflitos internos acima dos deles, desconsiderando
que eles sangram tanto quanto eu, seja no presente ou no seu passado.
Antes de ativarmos a nossa criança interior ferida e gritar
ao mundo que nossos pais falharam e que não nos entendem, nos colocando como alguém muito injustiçado, vale olhar com mais empatia e refletir o quanto os pais sentem dores também e elas latejam igualmente as nossas.
Deixar de lado a imagem romântica de que pai e mãe não erram é o começo da caminhada para reconhecer o quanto deles tem em nós, e isso é bom porque nos dá o poder de escolha, de fazer a mudança que gostaríamos, podendo decidir se perpetuamos ou não com as suas características que não nos agradam. Libertar os pais da perfeição é libertar a nós mesmos para seguir sem o peso da ancestralidade ferida.
Quando julgamos nossos pais, internalizamos inconscientemente um traço
deles no nosso comportamento, e isso nos faz parecer mais com eles a cada ano
vivido.
Ao contrário de culpar os pais por todas nossas feridas, é preciso honrá-los, sentir orgulho de suas histórias e como eles nos deram o melhor dentro de suas possibilidades, recursos emocionais e mentalidade que dispunham no momento em que estávamos sob seus cuidados. Depois de adulto, cabe a cada um construir sua própria vida, assumindo o controle e tomando a liberdade de fazer diferente, sem acusá-los pelo que quer que seja.
Culpar seus pais por tudo é atrair para si "o que você vai ser quando você crescer”.



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