Lidando com nossos demônios
Por Ricardo Garcia
Todos nós temos feridas e marcas que se tocadas nos causam incômodo. Elas podem ser superficiais e recentes, que ainda estão latejando. Podem ainda estar adormecidas, escondidas em um cantinho do nosso interior. (o tal do sentimento ilhado, morto e amordaçado que tão brilhantemente canta o Fagner)
A maneira de lidar com as dores internas depende muito da nossa personalidade. Em pessoas com temperamentos mais calmos e pacificadores ou mais contidas emocionalmente, as marcas na alma costumam ser internalizadas. É como se fosse mais difícil "furar" o bloqueio emocional dessas pessoas e identificar o que as deixa abaladas.
Por outro lado, em pessoas com temperamentos mais explosivos e expansivos, que estão sempre com suas emoções em ebulição, ficaria mais "fácil" encontrar aquilo que as desestabiliza.
Falando de uma maneira mais clara: quando estamos à flor da pele, nos expondo por completo e deixando às claras as nossas vulnerabilidades, fica mais perceptível a reação que temos quando algo nos fere.
São nessas horas em que a agressividade ou a repulsa costumam aflorar e tendemos a manifestar as nossas instabilidades emocionais de uma forma, digamos, mais previsível.
Diante dessa realidade, é pertinente refletir sobre episódios que colocam à prova o nosso emocional.
Um caso claro (e extremamente recorrente) é quando nos encontramos desarmados, em situações banais ou que, aparentemente, não pareciam apresentar tensões evidentes e somos atingidos gratuitamente por ataques que nos ferem emocionalmente. Em outras palavras, como controlamos os nossos impulsos? Como combatemos os nossos demônios no momento em que nos pegam desprevenidos e tocam em nossas feridas emocionais sem prévio aviso? Aliás, devemos combater os nossos demônios ou dar vasão a eles?
Trago a reflexão à tona a partir do já infame episódio envolvendo o ator americano Will Smith, que agrediu, aos olhos de uma audiência global, o apresentador de uma das cerimônias televisivas mais assistidas do mundo. Além do choque provocado pela cena, muita gente se perguntou: o que leva uma pessoa a agredir a outra na frente de uma plateia, em um evento televisionado para todo o planeta?
Acho que quem acompanhou o desenrolar dos fatos já entendeu os motivos que levaram o ator a tomar essa atitude drástica. A questão é: claramente Will tinha/tem demônios internos, que só ele e os seus familiares conheciam, e quando alguém maliciosamente "tocou" nesses monstros… Todos vimos o que aconteceu.
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Will Smith soltando os seus demônios...e o seu braço na cara de Chris Rock |
Como o próprio Will Smith admitiu na mesma cerimônia, ao receber o prêmio de melhor ator, um conselho dado a ele pelo colega Denzel Washington logo após a agressão ilustra bem todo o contexto. A frase dita por Washington foi: "No seu momento mais alto, tenha cuidado. É aí que o diabo vem atrás de você".
Após toda a repercussão do que aconteceu no Oscar e instigado pelas sábias palavras de Denzel Washington, me lembrei de um outro episódio similar, também envolvendo um astro que nunca foi associado a episódios de violência e um "palco" de dimensões globais.
Em 2006, França e Itália disputavam a final da Copa do Mundo de futebol. Com o jogo empatado em 1x1 e se encaminhando para o fim da prorrogação (com o nível de tensão e concentração dos jogadores no ápice), um episódio foi crucial para os rumos daquela decisão.
Principal jogador da seleção francesa, autor do gol da equipe no jogo e disputando a sua última partida como atleta profissional (ou seja, sendo o centro dos holofotes daquele enredo), Zidane foi expulso. A imagem do craque recebendo o cartão vermelho e saindo de campo, com a taça da Copa do Mundo ao fundo, como se ele estivesse dando adeus a ela, foi simbólica e chocante. Não tanto quanto a imagem que provocou tudo isso.
Após a expulsão, a transmissão recuperou o lance que a motivou. Uma agressão brutal de Zidane, com uma cabeçada forte no peito do adversário, que caiu de forma cinematográfica, deixou a audiência espantada. Como poderia uma figura tão pacífica como Zidane, que estava longe de ser um vilão ou um atleta violento durante toda a sua carreira, ter feito uma ação como aquela? Em uma final de Copa do Mundo?? Na sua última partida como jogador de futebol?? Não poderia ter sido algo "gratuito". E não foi.
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| Conhecido pela elegância e serenidade, Zidane mostrou a sua versão raivosa em uma final de Copa |
Depois de muito mistério e teorias, foi revelado o que o jogador italiano Materazzi falou para Zidane, gerando aquela reação tão imprevista. Uma ofensa pessoal, algo dito propositalmente para desestabilizar o craque, foi a "navalha" que o perfurou e o fez liberar o seu demônio, o "diabo" que Denzel Washington mencionou.
Will Smith, Zidane, assim como eu e você somos prova de que os nossos monstros internos, os nossos demônios, o diabo ou do que quiser chamar estão aí à solta, prontos para se revelarem. Eles estão rondando as mentes e as entranhas de gente de carne e osso, seja você uma celebridade ou um esportista renomado, por mais "cabeça boa" que você seja. E por mais intrigante que isso possa parecer: ter demônios internos, saber que eles existem e lidar com eles nos torna imensamente HUMANOS.





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