Divagações Musicais - Ovelha Negra (Rita Lee)

Por Maria Moura

"Levava uma vida sossegada, gostava de sombra e água fresca... Meu Deus quanto tempo eu passei sem saber! Agora é a hora de você assumir e sumir!"

Pois é, a nossa imaturidade (normal e aceitável até uma determinada idade) nos faz ficar satisfeitos com qualquer mínimo de conforto que existe na nossa casa. Porém, quando nossas vontades e sonhos não cabem mais naquele ambiente em que crescemos, é sinal que chegou a hora de assumir o nosso lado "ovelha negra” e partir.

Eu, sendo muito "fãzinha" da maravilhosa Rita Lee, me peguei esses dias ouvindo essa música (pela enésima vez) e me pus a refletir sobre o que seria uma "ovelha negra”. Acho que por muito tempo, e até hoje para quem não está no nível de consciência ao qual analisei esta canção, entende que o termo é algo negativo e o enxerga como a definição para alguém que se revelou como o “lado ruim da história”.

Na realidade, a percepção que tenho é que ser uma "ovelha negra" é simplesmente se assumir como alguém diferente, com particularidades únicas, com sonhos e projetos de vida únicos. É se reconhecer como um ser próprio, que não é obrigado a "andar com o rebanho".

Embora o significado da canção seja relacionado a um momento específico da vida de Rita Lee, não deixa de nos dar ensejo para fazer uma leitura mais abrangente da letra, aplicando em outros aspectos da vida, refletindo que não se trata, portanto, de nenhuma apologia à rebeldia insana e sem cabimento. Fala sobre o rebelar-se para se lançar na busca de construir a vida que se deseja, de ter coragem para vestir sua existência do seu modo. 

Essas viradas de chave são os momentos mais importantes na vida de uma pessoa, pois elas vêm como oportunidades em que o ser humano encontra ousadia para avançar, sair da sua inércia em que ficou acovardado por anos com medo de ser a temida ovelha negra. 

No momento em que alguém está em cima dessas molas propulsoras, ninguém pode impedir o seu salto, porque uma mentalidade se expandiu ali, a mudança é certa, e agora é possível enxergar o tempo que passou sem saber, em uma vida “sossegada”.

Ser ovelha negra é bom, desde que desperte para sua própria vida, a fim de querer mudar padrões que há muito vêm sendo cultivados como o único roteiro possível, como se uma coisa que fez bem 20 anos atrás continue fazendo sentido hoje. Não é deixar de ser quem é, ou perder princípios. Muitas vezes a pessoa tida como ovelha negra só busca por ela mesma, não é algo pessoal, não é contra ninguém.

Muitos talentos podem ficar escondidos por anos (ou para sempre) por medo, vergonha, bloqueios de manifestar suas decisões, para não ser tida como uma terrível ovelha negra.

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