Dia da Mulher e as saudações superficiais
Por Maria Moura
Essa boca aí só deseja feliz dia das mulheres ou dela também
saem palavras de respeito e de reconhecimento? Aliás, o feliz dia das mulheres
é algo dito da boca pra fora, repetido todo dia 8 de março para “soar bem” e
demonstrar um apoio protocolar à luta feminina ou é algo expressado de coração,
de verdade? Até que ponto os cumprimentos que recebemos são genuínos, frutos de uma real admiração por nós ou meras formalidades pra "ficar bem na fita?" O que se entende como sendo a nossa felicidade?
Na realidade, é importante abordar um pouco essa “tal” luta
feminina. De tão mencionada, ela virou um clichê para se referir à condição
feminina, sendo muitas vezes usada de forma padronizada e indistinta para
enaltecer a força das mulheres, sem um aprofundamento devido sobre as causas
que levam as mulheres a serem assim tão fortes.
Você já deve ter se deparado com expressões como “mulher
guerreira”, “mulher batalhadora”, “diva”. Todas elas, utilizadas por homens e
mulheres, fazem referência ao espírito combativo e altivo da mulher (o tão
famoso empoderamento). O que acontece é que entendo haver uma certa banalização
desses termos, do entendimento do que é de fato ser mulher. É como se essas
palavras fossem utilizadas automaticamente, de forma repetitiva, apenas para
endossar um discurso “politicamente correto”.
Mas vamos lá então, o que é de fato ser uma “mulher
guerreira”? Por que uma mulher precisa ser guerreira para encarar esse mundo
tão duro? Se você conversar com QUALQUER mulher (repito, com qualquer uma) você
vai conhecer (se ainda não conhece) quais são as reais “lutas” com as quais
temos que nos deparar a TODO momento.
Querem um exemplo? Eu desafio você a perguntar a sua amiga,
colega de trabalho, mãe, irmã, sobrinha, namorada ou quem quer que seja do sexo
feminino, e posso garantir, sem medo de errar, que TODAS elas vão te contar algum
episódio de assédio sofrido (em suas mais variadas formas). E todos nós sabemos que a condição feminina é
determinante para as abordagens assediadoras e abusivas. E não se enganem,
muitos (não digo todos) dos que o chamam de “guerreira” e te desejam um feliz
dia das mulheres podem querer tirar proveito dessa aproximação.
Para não ir muito além, assim como essas ameaças ao seu
sagrado espaço do corpo, toda mulher carrega consigo muitas cobranças externas (que consequentemente
levam à autocobrança). Seja de estar sempre com a aparência impecável, de ter a
melhor performance sexual, de estar disposta e devotada a cuidar da casa, do
marido, dos filhos, seja de não se deixar vulnerabilizar, de não se fragilizar, afinal ela é o
símbolo da “força” não é mesmo?
Deu para entender um pouco porque temos que lutar tanto,
porque é tão árdua e desafiadora a nossa caminhada? Ser forte não é uma opção para nós, é um meio de sobrevivência. É por isso que temos que ser tantas em uma só, sem deixarmos de ser únicas. E isso não é uma tarefa simples. Por isso somos tão complexas, indecifráveis.
Diante de tudo isso, antes de desejar um feliz dia da mulher protocolar e vazio,
antes de nos “exaltar” como guerreiras, vamos nos esforçar para entender um
pouco sobre as nossas lutas? Acho que não é pedir demais.


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