Divagações Musicais - Como Nossos Pais (Elis Regina)
Por Ricardo Garcia
De tempos em tempos, nos vemos assombrados por "ares" de retrocesso, de atraso e de retomada de costumes e hábitos sociais, culturais e políticos que já deveriam estar superados há décadas (ou séculos).
É como se resquícios de uma sociedade ultrapassada nos atormentassem e impedissem o fluxo natural da nossa história rumo ao progresso, à evolução. É como se lembranças de tempos sombrios já vividos estivessem por ali, sempre nos rondando, à espera de saírem das lembranças para voltarem a ser realidade.
É por angústias atemporais como essas que algumas canções, capazes de captar esses sentimentos, se eternizam na memória coletiva de um povo, prontas para serem resgatadas ao menor sinal de alerta.
E talvez uma das obras do cancioneiro popular brasileiro que retrata com mais fidelidade essa percepção é a magistral "Como Nossos Pais", composta pelo genial Belchior. Como se não bastassem a profundidade e a significatividade dos versos escritos pelo cearense, a música ganhou uma dimensão ainda mais grandiosa graças à visceral interpretação de Elis Regina, cuja morte completa 40 anos nesta quarta-feira (19/01).
Cada verso de "Como Nossos Pais", que foi escrita com o objetivo de retratar e traçar um recorte do contexto histórico e social da época, abordando os conflitos geracionais em tempos de ditadura, nos força a refletir sobre como lidamos com as "sombras dos nossos passados".
A inquietação, a aflição e até a amargura que embalam a canção nos mostram o "peso" que carregamos ao simplesmente viver. Carregamos conosco as nossas feridas, os nossos sonhos, mas também os sonhos de outros.
Por mais encorajados e destemidos que tentemos ser, inconscientemente, se não formos vigilantes com nós mesmos, poderemos repetir e reproduzir os mesmos comportamentos e "vícios" de gerações anteriores, que tanto tentamos combater. "Minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo o que fizemos ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais".
Apesar das lutas e da resistência em construir uma nova sociedade, não conseguimos abandonar velhas referências e não deixamos de exaltar os períodos gloriosos do passado, ao invés de mirarmos para frente. "Nossos ídolos ainda são os mesmos e as aparências não enganam não." "É você que ama o passado e que não vê que o novo sempre vem."
Enfim, a mensagem transmitida pela icônica canção é a de que precisamos estabelecer uma relação saudável com o passado, com as memórias. Eles nos servem de referência, de aprendizado, mas não podemos deixar que eles nos dominem, nos tenha sob controle. Somos nós os responsáveis por construir um "novo" diferente, com novas histórias e novas referências.


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