Quem nós somos?

Por Ricardo Garcia

A pergunta retórica e existencial que busca nos definir nesse universo guarda uma infinidade de interpretações.

A partir da leitura do interessante livro "Pensando Fora do Ego", de Cidinho Marques, me pus à refletir sobre a complexidade que é sabermos quem nós somos afinal. Segundo o autor, é natural que quando alguém nos pergunta quem somos, nós respondemos dizendo o nosso nome ou a nossa profissão. 

Quem é você? Eu sou fulano. Eu sou advogado. Como se essas respostas definissem quem você é, quando na realidade elas são apenas identificações do seu registro e do seu papel na sociedade, sem dizerem absolutamente nada sobre você. São apenas informações protocolares ao seu respeito. São uma espécie de "capa" social que assumimos para sermos identificados.

Ainda de acordo com o autor do livro, mais do que não revelarem nada sobre a sua essência e o seu verdadeiro EU, esses "conceitos de auto definição" acabam por basear o comportamento social de muitas pessoas. Isso acontece na medida em que desenvolvemos julgamentos e juízos de valor sobre nós mesmos e sobre os outros a partir de variáveis como a profissão, o status social, o gênero, a nacionalidade, a etnia, dentre uma série de outras "capas" que nos caracterizam.

O risco, com esse tipo de entendimento, é criar (conscientemente ou inconscientemente) regras morais e parâmetros sociais fundamentados, basicamente, em "rótulos" pré-determinados que nós concebemos.

Com isso, nós estamos privilegiando a forma, o superficial, a aparência ao invés da estrutura interior, da essência, que é realmente o que nos define. Nós estamos dando mais ênfase às nossas capas do que ao nosso conteúdo. É como se nós estivéssemos dando legitimidade à uma falsa percepção de identidade. (nossa e dos demais)

O pensamento pode ser exemplificado em algumas situações que merecem reflexão. O que justificaria, por exemplo, o comportamento racista de alguns negros em situação de poder e ascendência (como os policiais) em relação a outros da mesma cor, mas em situação de inferioridade? Ou um comportamento de menosprezo de um usuário de ônibus em relação a um motorista ou cobrador? (considerando-se que estes personagens estariam dividindo o mesmo ambiente, e logo não deveria haver uma distinção social tão nítida que justificasse o "ar de superioridade" de um em relação ao outro)

Perceba que comportamentos, infelizmente, rotineiros como esses são a manifestação clara do que ocorre quando há um equívoco de percepção sobre a identidade humana. Quem comete esse tipo julgamento é quem enxerga o mundo e as pessoas como coisas imóveis, sem vida, sem humanidade, que devem se encaixar a determinados padrões previamente estabelecidos por alguma convenção. 

A realidade é que situações como as relatadas, dentre tantas outras similares acontecem (e pode ter certeza que acontecem bastante) porque ainda existe na mentalidade de muitos o pensamento de que as nossas identidades podem ser "categorizadas" e "classificadas". É como se determinados perfis sociais tivessem o seu lugar fixo em uma "escala coletiva" pré-determinada e que, logo, devem ser "colocados no seu devido lugar".

Sendo assim, nos desprender da superficialidade, entendendo que as nossas identidades sociais e de pertencimento à coletividade são mais complexas do que parecem ser, é um exercício a que precisamos estar dispostos a praticar rotineiramente. 

Enxergar a nós mesmos e aos outros como bem mais do que um sobrenome, uma cor de pele, uma roupa ou uma profissão é compreender que existe uma energia própria dentro de cada um, que não pode ser confundida com a "embalagem" que nos é apresentada.  

          

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