Sobre sonhos...

Por Pedro Emmanuel Goes

Confesso que quando me pediram um texto sobre "sonho", achei que fosse ser algo mais simples de produzir, afinal, é um tópico contido no corpo de assuntos que me interessam. Mas ao mesmo tempo é complicado por se tratar de um ponto onde não há definição alguma das ciências exatas ou humanas: sobre o que são sonhos, como se produzem, para que servem?

Eu percebo que a mente compartilha com o espaço sideral e o oceano profundo (duas ótimas analogias para a mente, inclusive) a característica e o fato de serem ainda quase completamente desconhecidos pela ciência atual. 

Da mesma forma que a geografia dos oceanos inibe nossa tecnologia e impede (até o momento) uma sondagem completa e a captação de todas as formas de vida existentes e de todas as nuances da dinâmica oceânica, e da mesma forma que as distâncias que observamos no espaço sideral além do nosso sistema solar só  é possível via super telescópios, algo que torna nosso conhecimento igualmente limitado, a mente humana encontra barreiras técnico-científicas semelhantes e até um pouco mais complicadas de transpor (principalmente porque o interesse da ciência comercial parece ser mais voltado para os oceanos e o espaço interplanetário do que para a mente).

O sonho, enquanto produto da mente humana, carrega em seu bojo as mesmas dificuldades  já constatadas pelos estudiosos da mente, e outras além. A discussão não pára no campo da ciência. A natureza da mente é estudada desde a antiguidade, quando foram registradas as primeiras especulações sobre o que seria a mente - aqui, sempre associada a algo como a "alma", "espírito", algo sobrenatural, e percorre diversas áreas de conhecimento, como antropologia, medicina, psicologia, filosofia, sociologia, linguística, comunicação, e outras.

O termo "mente" vem da raiz verbal protoindo-europeia *men-, que tem o significado de "pensar, lembrar", dando origem ao sânscrito manas "mente", ao grego μένος e ao latim mens, mèntem, este último verbo para "pensar, conhecer, entender" e significa também medir, visto que alguém que pensa não faz outra coisa senão medir, ponderar as ideias - isso tudo conforme o Vocabolario etimologico della lingua italiana (1907).

Por esse breve retrospecto etimológico, já apreendemos duas das capacidades fundamentais da mente, sendo uma o pensamento, que é o próprio “ato mental”, e a memória, capacidade de reter, conservar, e recuperar conhecimentos, informações e experiências vividas. Outras “funções” da mente, dentre tantas, muitas ainda desconhecidas, são a imaginação, capacidade de criar, gerar, evocar novas experiências, ideias, imagens, pensamentos à mente, e a consciência, um aspecto que envolve qualidades como a subjetividade, a senciência, e a percepção das relações entre si e o meio circundante. 

Estudos antropológicos, sociológicos e linguísticos nos levam mais a fundo na compreensão da mente por outras vias, pelos estudos culturais, a partir da perspectiva coletiva. E quando se quer dizer algo sobre “sonhos”, é importante que se fale sobre a perspectiva coletiva, e eu espero conseguir falar sobre o porquê disso.

O sonho é bastante associado à função "imaginativa" da mente. Logo, é compreensível que seja um tema tão rico em "possibilidades". Desde a antiguidade, os sonhos são abordados como revelações, visões, visitas supernaturais, principalmente pela variedade de formas possíveis de sonhar, que vão desde os sonhos comuns, aos devaneios em estado de vigília, aos sonhos lúcidos, as alucinações provocadas pelo uso de substâncias entorpecentes, e até mesmo o transe. As explicações para estes fenômenos são igualmente diversas.

Os neurocientistas (gente sem alma, rsss), de um modo geral, veem o sonho apenas como um tráfego de informações sem sentido com o objetivo de manter o cérebro em ordem. A psicologia tem duas abordagens interessantes e que são bastante consideradas nas discussões sobre a função do sonho na subjetividade humana.

Em "A Interpretação dos Sonhos" (1900), Sigmund Freud vai definir o sonho como a vontade de realização de um desejo. Para o psicanalista, no enredo onírico há o sentido manifesto (a fachada) e o sentido latente (o significado), este último realmente importante. A fachada seria um despiste do superego (o censor da psique, que escolhe o que se torna consciente ou não dos conteúdos inconscientes), enquanto o sentido latente, por meio da interpretação simbólica, revelaria o desejo do sonhador por trás dos aparentes absurdos da narrativa.

Já Carl Jung, psiquiatra suíço, abrangeu o papel do sonho considerando-o não apenas um desejo reprimido, como também uma ferramenta da psique, que busca equilíbrio por compensação. Segundo ele, no sonho, personagens arquetípicos interagem em um conflito que buscam levar ao consciente conteúdos do inconsciente. Daí surgem conceitos como anima (força feminina na psique dos homens), animus (força masculina na psiquê das mulheres) e sombra (força que se alimenta de aspectos não aceitos de nossa personalidade). A linguagem fundamental com que os sonhos emergem é a mesma em todos os casos, por meio de símbolos.

Com essas informações em mente, já podemos especular um pouco sobre o papel dos sonhos em nossas vidas de forma tanto individual quanto coletiva.

São muitos os casos descritos pela psicologia, principalmente na bibliografia dos dois psicólogos citados aqui, do papel fundamental dos sonhos na recuperação terapêutica de pacientes com transtornos mentais. Os discípulos de Carl Jung, no clássico "O Homem e seus Símbolos", relatam diversas consultas em que os sonhos foram fundamentais, não apenas para "equilibrar” a mente do paciente, mas principalmente para REVELAR onde estão os desarranjos que a desequilibram. O tal equilíbrio viria como consequência do tratamento desses desarranjos.

Esse "equilíbrio" da psique, nos dias de hoje é um sonho por si. Com a população cada vez mais alienada (deslocada da realidade) pela tecnologia e pelo trabalho, os transtornos e dissociações estão cada vez mais comuns, e não é de se estranhar o boom da "saúde mental", tópico sanitário deste século (até o momento). A pandemia de Covid-19 acentuou a importância do tema, tornando a saúde mental alvo de políticas e campanhas nacionais, produzindo, ainda que muito lentamente, uma mudança de pensamento e (me permitam sonhar) de comportamento, resultado que só o futuro nos mostrará.

E por falar nisso, é de bom tom ressaltar que os sonhos estão completamente implicados no nosso futuro, individual e coletivo. Tanto a teoria de Freud quanto de Jung lançam essa ideia de que sonho é algo que está guardado e que precisa vir à tona. E por mais pueril ou nobre que seja, o ser humano caminha em direção aos seus desejos - ou sonhos. Essa busca se reflete indiretamente em nossos momentos de vigília (repare seus devaneios, onde você quer ir, o que quer conquistar, o que você sonhava ser quando era criança?). Quando nossos sonhos são constantemente frustrados, seja por nossa criação, preconceitos, desigualdades sociais, etc, há uma tendência muito forte - e os consultórios e centros de referência em psicologia estão sempre cheios, para confirmar, ao adoecimento mental, físico, espiritual, uma combinação que culmina, muito frequentemente em depressão ou violência.

É a partir do sonho que mudamos a sociedade. É sonhando o futuro que acertamos os primeiros passos em sua direção. É integrando o que rejeitamos (sombra) que podemos vislumbrar o todo (Eu) e manifestá-lo em sua melhor forma no mundo em que vivemos. A qualidade de nossos sonhos tem a base e o brilho de nossa mente consciente, o que torna o (auto)conhecimento algo fundamental para a qualidade dos nossos sonhos (e dos nossos desejos). A própria ciência, tão palpável e factual, não seria possível sem o sonho de descobrir.

Eu não vou jamais fechar o assunto nesse texto. Quis só pincelar algumas coisas que sabemos, ainda que nada seja concluso, apenas para inferir que: os sonhos são como uma bússola, apontam para frente. Principalmente aqueles que nos levam de volta ao passado que tentamos de forma tão (ou não) raciocinada esquecer.

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