Estamos "encaixotando" as relações?

Por Ricardo Garcia e Maria Moura

A procura da tal "alma gêmea" (com muitas ressalvas à veracidade do termo) é um caminho tortuoso, desafiador e que requer um grau de disposição elevado para tornar o percurso produtivo.

Esse percurso pode ser ainda mais complicado para aqueles que não estão muito dispostos ao "trabalho duro", para quem não se mostra engajado a se esforçar, a se mostrar aberto para uma vida a dois, a apresentar as mínimas condições necessárias para que um relacionamento amoroso floresça. Em casos assim, a relação que se estabelece com o conceito de "alma gêmea" é de espera e não de procura.

É como se a pessoa esperasse passivamente que o destino lhe contemplasse com a pessoa perfeita para as suas necessidades ao invés de criar as condições adequadas para que esse "encontro do destino" aconteça de forma mais natural.

Esse tipo de situação acontece de várias formas e por vários motivos. Decepções amorosas anteriores, frustrações na vida pessoal, inseguranças emocionais, dentre uma série de outros fatores, podem formar pessoas altamente exigentes no que diz respeito a relações amorosas. E isso faz com que essas pessoas "elaborem" listas, elencando características (físicas e comportamentais) que consideram indispensáveis na pessoa que procuram para se relacionar.

Não há nada de errado com isso. Pelo contrário. Trata-se até de uma decisão inteligente diante de uma sociedade cada vez mais instável e conflituosa, com pessoas apresentando comportamentos imprevisíveis e incontroláveis, em que "filtrar" com antecedência os perfis que podem lhe interessar é uma estratégia sábia.

O que se questiona é o risco que esse tipo de atitude apresenta. É o fato de muitas pessoas se "prenderem" de tal forma a essas listas, que há pouca margem para a aceitação das oscilações de personalidade, absolutamente naturais em um ser humano. 

Como consequência disso, abre-se um caminho perigoso para a "padronização" das relações, em que se busca, de forma rigorosa e metódica, a representação ideal do parceiro perfeito. Aquele com o qual se desejou a vida inteira. E tudo isso é um prato cheio para a ilusão e a frustração.  

Muitas pessoas "desistem" de investir em um relacionamento ou se frustram com o não progresso de uma potencial relação ao menor sinal de um "desvio de rota" naquela tal lista fechada de características desejadas. Em casos mais extremos, há relatos de pessoas que terminam um relacionamento mal sucedido e, quando vamos ver, o seu parceiro seguinte é absolutamente idêntico fisicamente ao parceiro anterior, em uma clara ilustração de tentativa e erro levada às últimas consequências, em que "abrir mão" de certos caprichos não é uma possibilidade cogitada.   

É como se estivéssemos tratando as relações como um pacote fechado de prazeres, ignorando a complexidade individual de qualquer ser humano e projetando relacionamentos irreais e pouco factíveis, tornando mais difícil o amadurecimento nesse campo. É como se "encaixotando" as relações dessa forma, nos sentíssemos mais protegidos e preparados para o que viesse a acontecer, já que trataríamos a relação como algo previsível.           

 

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