Divagações Musicais - Gita (Raul Seixas)

Por Ricardo Garcia

A obra musical de Raul Seixas é recheada de referências místicas, espirituais e existenciais, que caracterizam a sua personalidade artística provocativa, reflexiva e contestadora.

E mesmo diante de um repertório tão rico de temas que nos levam a pensar sobre aspectos da vida, é quase unanimidade entre os apreciadores de Raul que a música "Gita" é uma das mais profundas da sua obra. Eu iria mais além e diria que se trata de uma das canções mais profundas de todo o cancioneiro popular brasileiro.

Composta por Raul em 1974, em parceria com Paulo Coelho, "Gita" é um manifesto da espiritualidade. É um convite à autodescoberta e à conexão espiritual. É a mensagem que nos provoca a olhar para nós mesmos e para o nosso entorno.

             

A música é inspirada no livro "Bhagavad Gita", um dos mais importantes textos da cultura indiana e tido como a "Bíblia" da cultura hinduísta. A religião Hindu de Krishna se baseia no Panteísmo, transmitindo que a presença divina está em todos os elementos da natureza e não apenas centralizado em uma única figura (Deus).

No texto da obra em específico, Krishna (que seria a representação de Deus) é indagado sobre como ele poderia ser compreendido pelo povo hindu. Da sua resposta, saíram trechos que inspiraram a composição de Raul e Paulo Coelho.

Segundo os escritos, as palavras de Krishna foram: "Entre as estrelas sou a lua... entre os animais selvagens sou o leão... dos peixes eu sou o tubarão... de todas as criações eu sou o início e também o fim e também o meio."

Sendo assim, toda a letra de "Gita" está sustentada pelos princípios e fundamentos da filosofia panteísta, em que a figura da divindade, do Ser supremo que conduz o universo, não é vista de forma reducionista ou romantizada. Ela é vista não como uma parte para o entendimento do universo, mas sim como cada parte integrante desse mesmo universo. "Eu sou o tudo e o nada."

Na realidade, uma outra abordagem sobre a interpretação da canção é a que compreende a capacidade que teríamos de manifestarmos Deus em nós mesmos, por meio das nossas atitudes, inseguranças e medos. É como se Deus se manifestasse em cada um de nós a partir da conexão que estabelecemos com tudo o que existe ao nosso redor, como estrelas, universos...amor. "Eu sou a luz das estrelas. Eu sou a cor do luar. Eu sou as coisas da vida. Eu sou o medo de amar."

Em outro trecho, a canção deixa claro como é inútil procurar respostas em Deus. "Por que você me pergunta? Perguntas não vão lhe mostrar. Que eu sou feito da terra, do fogo, da água e do ar. Você me tem todo o dia, mas não sabe se é bom ou ruim. Mas saiba que eu estou em você, mas você não está em mim." 

De uma forma geral, a "mensagem" transmitida pela música é a de que devemos "sentir" e reconhecer a presença de Deus (ou de uma figura divina e suprema) a partir das nossas próprias experiências e percepções da vida, em um processo de despertar de consciência para a humanidade que temos dentro de nós. 

 

Letra:

Eu, que já andei pelos quatro cantos do mundo procurando

Foi justamente num sonho que Ele me falou

Às vezes você me pergunta

Por que é que eu sou tão calado

Não falo de amor quase nada

Nem fico sorrindo ao teu lado

Você pensa em mim toda hora

Me come, me cospe, me deixa

Talvez você não entenda

Mas hoje eu vou lhe mostrar

Eu sou a a luz das estrelas

Eu sou a cor do luar

Eu sou as coisas da vida

Eu sou o medo de amar

Eu sou o medo do fraco

A força da imaginação

O blefe do jogador

Eu sou, eu fui, eu vou

Eu sou o seu sacrifício

A placa de contramão

O sangue no olhar do vampiro

E as juras de maldição

Eu sou a vela que acende

Eu sou a luz que se apaga

Eu sou a beira do abismo

Eu sou o tudo e o nada

Por que você me pergunta?

Perguntas não vão lhe mostrar

Que eu sou feito da terra

Do fogo, da água e do ar

Você me tem todo o dia

Mas não sabe se é bom ou ruim

Mas saiba que eu estou em você

Mas você não está em mim

Das telhas eu sou o telhado

A pesca do pescador

A letra "A" tem meu nome

Dos sonhos eu sou o amor

Eu sou a dona de casa

Nos "pegue-pagues" do mundo

Eu sou a mão do carrasco

Sou raso, largo, profundo

Eu sou a mosca da sopa

E o dente do tubarão

Eu sou os olhos do cego

E a cegueira da visão

É, mas eu sou o amargo da língua

A mãe, o pai e o avô

O filho que ainda não veio

O início, o fim e o meio

O início, o fim e o meio

Eu sou o início, o fim e o meio

Eu sou o início, o fim e o meio

  


     

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