Diversidade sexual e a compreensão que pede tempo
Por Ricardo Garcia
A luta por igualdade é uma das pautas humanitárias mais nobres da nossa civilização.
Desde o famoso lema que embalou a Revolução Francesa, passando pela luta de Nelson Mandela contra o apartheid na África do Sul, até as grandes mobilizações contemporâneas de movimentos pelos direitos humanos, muitas vozes gritaram pela necessidade de construirmos uma sociedade mais justa e igualitária.
E dentre os temas que compõem essa "agenda pela igualdade" que atravessa gerações, um dos que sempre provoca mais polêmica diz respeito ao debate sobre a sexualidade, mais especificamente no que trata de orientação e diversidade sexual.
Cercado de argumentos religiosos, dogmáticos, bem como de construção de identidade e de resistência afirmativa, esse é um debate já travado por décadas. Porém, ele tem ganhado cada vez mais espaço e força por conta da crescente representatividade social de movimentos de gênero e da relevância do ativismo sexual, que são acompanhadas também por movimentos políticos e sociais de contestação, que não aceitam esse "ganho de espaço".
Após a semana que celebrou o Dia Internacional do Orgulho LGBTQIA+, que simboliza um ato de resistência de gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais diante da repressão sexual sofrida por essa comunidade, acompanhei algumas discussões que me fizeram refletir sobre a questão da sexualidade.
E embora não seja uma conclusão (até porque esse assunto é marcado justamente por não ter fim rs rs), o ponto de reflexão a que cheguei é a necessidade de se buscar alcançar uma palavra mágica: compreensão. E ela abrange desprendimento e desapego dos preconceitos, mas acima de tudo: tempo!
A discussão sobre a sexualidade e as suas inúmeras possibilidades de relações, impulsos, desejos e percepções não pode jamais se resumir a uma hashtag, frase impactante, sigla ou símbolo de identificação.
Todos esses elementos são importantes para a construção do debate e posicionamento de bandeiras, mas não podem ser definidores de uma pauta tão complexa e com tantas nuances a serem exploradas.
Se não, vejamos. Quantas pessoas conhecem ao certo o que significa cada letra da sigla LGBTQIA+?Quantas pessoas já "bugaram" a cabeça tentando entender termos como linguagem neutra, gênero não-binário e sexualidade fluída?
Vamos mais além para algo que também me intriga bastante. Como fica a questão dos banheiros em meio a todo esse debate?
Peguemos uma situação hipotética (ou nem tão hipotética assim, já que é algo bem plausível de acontecer). Uma pessoa trans, que se identifica com o gênero feminino, opta por utilizar o banheiro feminino e é constrangida ou provoca constrangimento a uma mulher que não se sente confortável com a sua presença naquele espaço.
Da mesma forma, essa mesma pessoa trans não se sente confortável ao ocupar o banheiro masculino, por razões óbvias. Como resolver esse dilema? Alguns poderiam "sugerir" que bastaria "criar" um banheiro específico para esse público. Mas e se essa atitude configurar uma nova espécie de segregacionismo, como acontecia com os negros (que eram obrigados a usar banheiros destinados exclusivamente a sua cor) a nem tantas décadas atrás? Percebe-se toda a complexidade que envolve esse tema, mesmo na simples escolha de um banheiro?
Sejamos honestos. Como se pode buscar um entendimento geral e homogêneo de toda uma sociedade sobre questões ainda tão em construção e desenvolvimento? (e aqui não falo sobre a necessidade clara de respeitar essas questões, por mais que não entendamos muito sobre elas)
O fato é: são pouquíssimos aqueles que alcançaram o grau de instrução, de evolução espiritual e de consciência sexual para dominar (e saber explicar) toda a complexidade que envolve esses conceitos.
Sendo assim, as vezes tenho uma leve impressão que alguns militantes tentam forçar uma "imposição" de compreensão sobre questões de difícil compreensão, até para os mais entendidos.
E sinto desanimar esses militantes mais "apressados", mas toda compreensão demanda tempo. Em se tratando de sexualidade então, acredito que a nossa geração não vai atingir o nível de entendimento e de maturidade suficientes para tal. De qualquer forma, podemos nos esforçar para tornar esses assuntos mais "entendíveis" para as gerações futuras.



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