Relações familiares: quando a individualidade pede espaço

Por Maria Moura

A dinâmica familiar é caracterizada por uma convivência em grupo que pode desencadear padrões tóxicos que afetam todos os envolvidos.

Como esse assunto não foi tratado durante anos, sendo hoje abordado com mais leveza, muitas pessoas estão tendo mais clareza sobre sentimentos e sensações que sentiam, mas não sabiam descrever, se sentindo muitas vezes egoístas por acharem que era um enorme erro não sentir mais satisfação na vivência diária com a família de primeiro grau.

Não é possível viver só de amor materno e fraterno.

Para uma vida saudável é essencial à pessoa adulta nutrir-se de outros tipos de amor, sobretudo o amoroso-afetivo. Um ser humano adulto que não desenvolve esse sentimento para com outro, tem grandes chances de viver insatisfeito com a falta que esse pilar de amor faz, por sentir que algo está desajustado.

Parece duro dizer, mas o ninho familiar já não é mais suficiente para ter uma vida plena, porque o ser humano depois de adulto tem a necessidade de fazer sua própria história, buscar seus prazeres e conhecer outro lugar que ele se sinta confortável também, além do lar em que nasceu e se criou.

É normal ao ser humano a necessidade de fazer outros laços para poder se sentir vivendo na sua própria pele. Caso contrário, ele pode se tornar um eterno dependente afetivo dos familiares, e com o tempo, vai se sentir inútil e incapaz por não ter construído seu próprio destino.

A longo prazo isso gera muita confusão no psicológico da pessoa.

É importante não perder as raízes, mas cortar o cordão umbilical da dependência é essencial para seguir o fluxo natural da vida adulta.

É preciso traçar rotas diferentes das quais estávamos habituados a seguir juntos da família; é fundamental que cada um trilhe seu próprio caminho, construindo uma história honrosa que o faça sentir orgulho e motivação com a vida. 

O egoísmo inconsciente de alguns pais/ cuidadores os fazem negar à prole a vivência plena de sua própria vida por ciúme ou sensação de posse. Fazendo isso, os pais tornam-se injustos ao projetar seus medos e inseguranças no outro, principalmente quando influencia no bem estar do filho.

Desejar uma vida diferente da do círculo familiar não invalida sentimentos, ao contrário do que pode acontecer quando adultos permanecem em um mesmo ambiente que não cabe mais todos: a personalidade de cada um aflorará de maneiras diferentes podendo gerar situações desagradáveis.

O adulto chega a um momento da sua vida em que as relações com a família de primeiro nível já não o preenchem mais. Isso por que ele almeja outras experiências, e o que viveu na infância e adolescência é um ciclo que sente necessidade de encerrar. 

Embora guarde com saudade as recordações vividas com os que fizeram parte de sua infância/ adolescência, isso já não o satisfaz mais e nem gera prazer e sensação de completude no indivíduo adulto. Tudo isso fez parte de sua vida, mas não é mais interessante e lógico reviver, simplesmente porque não faz mais sentido. Seus desejos e anseios estão em outro patamar. Agora a mente e o corpo dele exigem outras necessidades que as pessoas do seu círculo familiar não podem mais proporcionar.

A ligação com as figuras de apego primitivo do ser humano nunca será anulada. Esses primeiros amores nunca serão substituídos.

Os espaços de um adulto é que se expandem e demandam coisas diferentes do que a família oferece. A satisfação já não pode mais ser suprida com momentos entre pai, mãe e irmãos.

A mente adulta ressignifica os sentidos de completude. Se antes era prazeroso sempre dividir as experiências de vida em família (embora esses momentos sempre devam permanecer e trazer muita alegria), agora a sua maturidade exige outras vivências e convivências.

São assuntos que, a primeiro momento, parecem significar falta de amor ou ingratidão com a família. Mas é preciso seguir. É preciso viver a individualidade latente da vida adulta, além do mais, dar andamento ao curso da vida com normalidade faz parte de uma mente saudável e inteligente. 

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