Olhares rasos
Por Ricardo Garcia
"Como são admiráveis as pessoas que nós não conhecemos bem."
A sarcástica frase do escritor Millôr Fernandes revela como somos "condicionados" a admirar pessoas por aquilo que elas mostram de positivo. E de "admirável". Como se elas se resumissem a condutas, gestos e atitudes dignas de aplauso.
O ser humano é complexo, e é por conta dessa complexidade que é arriscado precipitar julgamentos sobre os outros sem um devido aprofundamento da sua índole, sem um mínimo de convivência ou sem conhecimento da sua história.
Em uma sociedade cada vez mais superficial e egoísta, onde não há o devido interesse em conhecer as particularidades e realidades de cada indivíduo, sob os mais diversos aspectos, sejam eles de relacionamento, de trabalho ou até familiar, a frase de Millôr se encaixa com ainda mais perfeição.
É esse pensamento que está por trás da tão falada "cultura do cancelamento", o símbolo contemporâneo da decepção que sentimos ao descobrir que quem admiramos não tem muita coisa a ser admirada.
É como se preferíssemos "nos iludir" com aquilo que conhecemos do outro, com aquilo de bom que ele nos mostra, sem correr o risco de conhecê-lo demais e perceber as suas falhas, as suas fraquezas, os seus desvios de caráter, o que nos provocaria frustração. Mas essa pessoa se mostrava tão perfeita, tão correta, por que ela fez isso?
As pessoas fazem isso por que é do ser humano fazer isso. É do ser humano ser falho, ser incompleto.
O que cabe a cada um é reconhecer o que há de bom e mau em si e nos outros, evitando projetar perfeições incabíveis, idolatrias cegas e admirações superficiais sobre aquilo que nem nos damos ao trabalho de conhecer direito.



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