Estamos banalizando o drama?

Por Ricardo Garcia

Em meio a um período de luto e de assimilação da dor, me deparei há algumas semanas na internet com duas notícias aparentemente contrastantes, mas que na realidade guardam algo em comum.

Na mesma página de um portal de notícias era possível ver o "desabafo" nas redes sociais da filha de um cantor famoso que se lamentava com os seus seguidores por se sentir vazia depois de ter conquistado tudo o que queria; assim como o relato da situação de um jogador da seleção brasileira de futebol, impossibilitado de comparecer ao velório do seu próprio pai por conta das restrições impostas pela pandemia de Covid.


Poucas semanas depois, outra notícia relatava a “luta grande” travada pela cantora Kelly Key por ser bonita demais.


A leitura dessas matérias me fez refletir sobre a percepção que temos sobre drama.


Afinal, qual o parâmetro que temos para definir uma situação como dramática? 


Claro que trata-se de algo muito pessoal, subjetivo e cercado de aspectos emocionais e de vivências, mas a impressão que tenho é que muitas pessoas desconhecem o significado e o peso de uma situação verdadeiramente dramática.


Sobretudo em uma era hiperconectada e interativa, onde figuras como a filha do tal cantor encontram o “apoio” e o respaldo de milhares de seguidores interessados na sua vida para desabafar sobre o vazio sentido após conquistas pessoais, o valor da dor e do sofrimento me parece banalizado com muita frequência.


Nada contra o direito da garota de manifestar as suas angústias com o público que a acompanha, mas não há como negar que o seu “drama” soa como um deboche diante de uma realidade tão dura e cruel como temos vivenciado.


Não pretendo comparar dramas, já que como dizem os Titãs, “cada um sabe a alegria e a dor que traz no coração”. Mas, como pondera os versos de outra icônica canção, "na vida, a coisa mais feia é gente que vive chorando de barriga cheia".


Dessa forma, acredito que há sim uma escala razoável para medir o que nos deveria fazer sofrer e nos angustiar. E não é necessário muito discernimento pra se chegar a essa reflexão.


Comentários

Mensagens populares