O século XXI será o século da espiritualidade? (Parte 1)
Por Pedro Emmanuel Goes
Há muitas formas de ler as coisas que acontecem no mundo. Por mais que vejamos os assuntos de forma separada (ciência, política, religião, etc) e baseado no contato imediato que aquilo tem conosco, basta distanciarmos o olhar e observar o conjunto das coisas, para percebermos que há um grande véu que cobre toda a nossa existência e esconde redes de causas e consequências, polaridades em disputa, links dos mais diversos e toda uma trama histórico/econômico/sócio/cultural e até psicológica, que se costura sobre (e conforme) a espiritualidade da humanidade.
O tópico espiritualidade vem ganhando novo corpo nos primeiros anos do século XXI ao sermos apresentados a novas formas de integração, diferente daquelas impostas pelos sistemas religioso e capitalista desde que os europeus invadiram o território brasileiro (no caso do Brasil).
E quando falo que a espiritualidade é o que linka as diversas áreas da vida em nível tanto individual quanto global, incluo aqui, a falta de espiritualidade e seus reflexos na condução da existência humana para explicar as crises, doenças.
Há uma associação muito bem vinda que dá à palavra “religião” o sentido de se “religar” com um poder interior, que está acima (não no sentido de altura ou altitude) de todas as coisas, permeando e conduzindo todos os seus detalhes. Outra versão aponta que a palavra em latim para religião tem significado de “escrúpulo”, o que também faz sentido nessa mesma perspectiva.
Todas as doutrinas espiritualistas, religiosas, filosofias e a própria psicologia apontam o dedo para, o que para alguns pode ser o nosso “lugar de origem”, dimensão espiritual da qual saímos ao encarnar e levamos uma vida inteira para encontrar o caminho de volta (o retorno do filho pródigo), para outros, pode ser apenas o centro administrativo da nossa psiquê, cujas sombras devemos integrar e harmonizar, pois também compõem o nosso Ser.
O que posso afirmar com alguma certeza sobre esse assunto, e nem sei se isso é recomendável, é que o caráter incognoscível dessa grande Verdade (com V maiúsculo, ou usando outras palavras, centro ou sentido, direção - ou Deus, pra quem não tiver problemas com isso), ainda é inacessível para alguns, justamente porque a Verdade não é algo de nosso interesse enquanto sociedade.
O que é do interesse geral (e aqui falo daqueles que “tocam” a sociedade: políticos, empresários, etc) é uma verdade inferior, pequena, com v minúsculo, pessoal, que é ao mesmo tempo causa e consequência, em nível cultural e histórico, da subjugação de povos, culturas diferentes desde que o homem entendeu que poderia dominar o outro em seu favor pela força.
Os sistemas se desenvolveram e estamos em pleno século XXI vivenciando as consequências desse tipo de pensamento/conduta, que gira em favor de interesses pessoais e acima dos interesses da humanidade.
De tempos em tempos surgem mestres, gurus, “iluminados”, com um imperativo que pretende orientar (ou salvar) as gerações dali em diante. Podemos citar entre estes, para não dar chance aos trapaceiros, o alerta racional do Gautama Buda, que chama atenção para os perigos de ser guiado pelos desejos e emoções e não perceber a ilusão que é o que entendemos por “realidade”.
Mas são as palavras de Jesus Cristo, com os pedidos de humildade e solidariedade, com seu “ame o próximo como a ti mesmo”, que mais evidenciam o que nos falta hoje, e daí, estarmos onde estamos (e daí também Jesus ser o guru do mundo ocidental).
Para todos esses mestres espirituais, o encontro com a Verdade se dá a partir da abnegação, da negação do ego e da vontade pessoal em prol de algo maior. Quanto mais afundamos no que é material e individual, mais escravos desse sistema, que escraviza, nos tornamos, e a força que quebra essas correntes é o amor à Verdade, grande doadora.
O momento é de desconexão tal com essa Verdade, uma literal falta de norte, centro ou direção que o colapso pelo qual estamos sendo engolidos nesses primeiros anos do novo século começou com a disseminação de NOTÍCIAS FALSAS, uma coisa que começou de forma sutil e virou a doença humanitária, prática nociva que dá voz a grupos minoritários que usam da mentira, a falta com a Verdade (não há nada MENOS cristão que isso), para promover seus projetos pessoais. Jesus revira na cova, Buda revira os olhos. Ambos avisaram. E outros mais.
Então, seguindo adiante, não é de se estranhar que este possa ser visto futuramente como o século da espiritualidade, e isso porque o tema é central de muitas formas.
Se de um lado, setores religiosos conservadores da sociedade que querem manter sistemas de privilégios unem forças e usam da espiritualidade do povo para, no pico de uma pandemia com índices elevadíssimos de contágio e morte, manter seus privilégios (transformando a abertura de igreja em época de lockdown em pauta nacional, ministerial); do outro lado, cresce de forma vertiginosa o interesse pelo tema espiritualidade, assim como formas de encontrar autoaceitação e reintegração, longe da opressão permitida pela espiritualidade “vigente”.
Há uma guerra espiritual em curso, e é importante considerar que nesses dois extremos nem todos são vilões ou mocinhos. Tudo tem nuances.
Acompanhe a parte 2 do texto na próxima semana.



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