Perto do Coração Selvagem

 Por Maria Moura

Como sempre, a sensibilidade para as coisas da vida está presente nas obras de Clarice Lispector.

Falar das inquietações mais profundas que mexem com o ser humano é a marca principal das obras da escritora.

O livro “Perto do Coração Selvagem” não é diferente. Nele, a autora discorre de maneira profunda, singela, sutil, surpreendente, confusa, contraditória - tangenciando a complexidade existencial - sobre a vida da personagem Joana.

A garotinha que mora somente com o pai, após a mãe ter falecido, vive uma vida solitária e pouco feliz. 

Sem ninguém para brincar, sem atenção do pai, sem instrução, sem cuidado, sem ternura, Joana vai se tornando sem ela mesma.

Talvez pela solidão, a menina criava muitos pensamentos. Sua mente passeava longe. Observava as coisas da casa e procurava sentido em tudo que via. Queria entender o funcionamento de tudo que a rodeava; das coisas materiais às coisas da vida.

Observando as sutilezas da vida, quase sempre estava se questionando sobre tudo e não conseguia entender nada. Na falta de alguém que julgasse mais sábio para lhe explicar, Joana vai formando sua personalidade recheada de dilemas, dúvidas, lacunas.

“...Pelo ranger das folhinhas da árvore que se esfregavam umas nas outras radiantes.”; “Houve um momento grande, parado, sem nada dentro...” 

Eram em devaneios como esses que Joana se distraia, passando a sua infância carente de mundo externo, se fechando em seu interior cada vez mais.

A vida de Joana realmente não tinha nada de encantador. Uma infância sem mãe, e quando já estava mocinha, perdeu o pai também e foi morar com a tia. Depois veio o internato, até o seu casamento.

A imaginativa personagem Joana que, embora tenha seguido as fases da vida, ainda guardava as lembranças de sua infância. Lembranças que se perpetuavam em sua memória, fazendo-a recordar dos dissabores da infância precária de afeto. 

Na vida adulta e casada, a aridez de sentimentos é continuada. Que, aliás, ser adulto não é sinônimo de resolver nada. Pois a infância é o terreno que se pisa a vida toda. E quando esse terreno é cheio de buracos, a vida adulta é só mais um tormento irresoluto.

É paradoxal dizer que, apesar da felicidade não estar muito presente na vida de Joana, ela enxergava muita poesia no viver. Tanto é que a deixava triste e melancólica, e isso é que formava muros entre ela e o marido Otávio. Por ela não conseguir se expressar, colocar pra fora seus sentimentos conturbados, ficava presa e perdida dentro de si mesma.

A infância reprimida a deixou sensível, mas gélida. Queria poder falar como se sentia, mas não ficava confortável em expor, nem mesmo ao seu marido.

Essa sensação de sufocamento pesava nos seus dias.

A eterna garotinha observadora e, de certa forma sonhadora, se distraia fácil. Gostava de andar muito. Era reflexiva. Criava pensamentos com apenas uma situação que chamasse sua atenção.

Quando fitava algo ou alguém para construir suas interpretações, era capaz de fazer percepções que outra pessoa jamais poderia observar o que estava por trás do trivial. 

Captava detalhes de como uma situação acontecia exatamente por cada movimento, olhares, gestuais. A voz também era um evento ao qual Joana ficava atenta. O tom, a maneira de falar, tudo isso era notado e a partir disso sentia compaixão ou não pelo que extraia da complexidade humana.

Vivendo com seu marido Otávio, Joana contemplava milimetricamente suas ações e sempre dava significado e um sentido para todas elas. 

Isso tudo a fazia pensar demais. E pensar demais algumas vezes não a ajudava em nada. Só travava ainda mais seus passos que sempre foram pensados metodicamente, apesar de que seu desejo, desde criança, era correr sem seus enclausuramentos mentais que desde sempre a fizeram refém de si mesma.

Ela sentia as coisas tão intensamente que penetravam no seu pensamento, corpo, alma e espírito, e ela sentia várias sensações, sabores, vontades. 

Mas sempre, ao final de toda a descarga emocional que não conseguia evitar, ficava mais confusa e mais comedida de si e do mundo.

Joana só queria ser livre, mas não sabia por onde começar e por não saber se explicar, por sempre está dentro dela um turbilhão de sentimentos se misturando a todo momento, ela sentia que se afogava cada vez mais na sua vontade de liberdade fracassada.

Ser como Joana, sentir com Joana, era a coisa mais difícil.

Havia momentos que gostava de ser desperta e vívida para enxergar a grandeza e a pequenez da vida.

Mas em outras horas lamentava-se por ser quem era e como era. Preferia não entender nada e não buscar o entendimento e só seguir o curso da vida como a maioria das pessoas faz.

Mas Joana não. Ela era a exceção e não a regra. E isso fazia dela um ser grandioso, mas seres assim geralmente não são muito felizes, não é mesmo?!

A vida é contraditória. Ser desperto é sentir mais fundo os extremos da existência: o amargo tenebroso e o êxtase adocicado. Ambos quando vêm é de forma arrebatadora e intensa. Conseguir enxergar as partículas vitais que pulsam em cada ser dotado de complexidade. 

Por outro lado, quem se esquiva do entendimento não constrói prisões mentais por não se sentir ousado o bastante para definir a vida. Apenas vive e segue o fluxo.

Afinal, qual a melhor forma de se viver?


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